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O aluguer do útero: start-up

Na edição de Junho/Julho de 2019 da revista “1843”, publicada pelo The Economist, surge um artigo glorificando a mudança de mentalidades relativamente ao fenómeno da gestação de substituição (vulgarmente designado por “barrigas de aluguer”) ativamente promovida pelos profissionais da Bay Area. Segundo a autora do artigo, Alexandra Suich Bass, a editora de tecnologia da revista, os homens e mulheres que militam nas empresas de tecnologia que dominam a economia do novo milénio e que se estabeleceram em Silicon Valley, estão na vanguarda do discurso moral e a caminho, entre outras brilhantes conquistas, de normalizarem a gestação de substituição como uma alternativa viável para a procriação humana.

Sendo o processo caro, os afluentes e sinistramente planeadores profissionais do submundo tecnológico californiano estão em posição de aceder aos serviços de fertility journey coaches e de empresas como a Carrot. Por outro lado, corporações como a Google e a Facebook subsidiam estes serviços, possibilitando, por essa via, que as mulheres que aí laboram possam adiar a maternidade até idades relativamente avançadas, com as inerentes consequências adversas em termos de fertilidade; e depois, quando a maternidade se dá, contornem os aborrecimentos e ineficiências da gravidez.

Também os casais de homossexuais masculinos, que segundo Cheryl Lister, uma profissional do setor, representam um terço dos processos de barriga de aluguer em curso, têm contribuído para normalizar o processo.

A autora do artigo, com indisfarçada admiração, aponta também para uma dimensão particular da cultura na Bay Area que tem ajudado a combater estigmas e a mudar mentalidades: o empreendedorismo reinante significa que, em regra, as pessoas não se importam de trilhar caminhos menos ortodoxos para obter o que desejam, seja o almejado sucesso comercial ou um filho.

No último parágrafo, Alexandra Suich Bass nota um dos aspetos mais desconcertantes de tudo isto: «Mas à medida que mais bebés forem gerados através de gestação de substituição, o processo tornar-se-á mais aceitável.»

Não será, pois, de estranhar que, daqui a alguns anos, algumas mulheres – previsivelmente saudáveis, mas pobres – assegurem a sua subsistência como úteros aos serviço de homens que, por conta das suas opções sexuais, não se podem reproduzir, e por mulheres que, orientadas pelas suas escolhas de carreira, preferem delegar em seres humanos mais desafortunados o incómodo da gravidez e a dor (e risco) do parto. Em comum, posses suficientes para alugar úteros e, claro, um notável espírito empreendedor.

Para muitos daqueles que contemplam com incredulidade e repugnância esta “evolução”, a imigração interior é talvez o único mecanismo de felicidade que sobeja. À medida que os bárbaros ocupam os conceitos de liberdade e dignidade com a sua própria circunscrição ideológica, barrando qualquer afirmação de recusa e acantonando a tradição judaico-cristã nas catacumbas censuradas dos museus do aço e vidro que a modernidade edificou, uma tristeza imensa desce o seu véu de nojo sobre o espírito.

É difícil conviver com o escárnio condescendente dos triunfadores, munidos de riquezas fabulosas e de uma perfeitamente lógica retórica amoral… Afinal, a portadora do útero é uma mulher livre, uma vida humana irá desenvolver-se no seu corpo, e, claro, a liberdade absoluta é um bem desejável…

No entanto, algumas coisas são erradas, simplesmente porque sim…

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