Palavras

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Palavras

Revolução

Na praia

Não é uma cena invulgar e a sua vaga comicidade não é mais que a resposta a instintos rudes; ainda assim, pelo simbolismo que pode mobilizar, o episódio merece ser descrito.

Eu era ainda um miúdo e estávamos na praia, em família, ao início da tarde. Em compasso de espera pela digestão do almoço, eu observava o avanço da maré e dois pássaros que saltitavam pela rebentação em movimentos tremeluzentes.

Perto do nosso acampamento estival, a meio caminho entre o lugar que ocupávamos e o mar, estava um casal com duas filhas, também eles com guarda-sol e toalhas, uma sacola com comida e, nisso levavam-nos de vencidos, uma pequena geleira portátil, onde traziam melancia e a água fresca que me recordo de cobiçar.

A senhora em questão estava deitada sobre a toalha, de rabo para o ar, aparentemente adormecida, com o marido a seu lado, também ele estendido ao sol.

A dado momento, ergueram-se as cabeças de ambos num movimento sincronizado. Marido e mulher espreitaram para o oceano coruscante, alarmados pelo som de uma onda que se desfizera na rebentação e que, durante alguns segundos, se espraiou veloz areal acima. O mar acabou, no entanto, por perder o fôlego e recuar quando chegara já a poucos metros do sítio onde estava o casal. As ondas seguintes ficaram bastante aquém da orla de espuma que aquela havia deixado, o que terá bastado para tranquilizá-los, já que o homem tombou quase de imediato e a mulher, depois de espreitar para as filhas, que brincavam ali perto, voltou também a enterrar cabeça na areia, de regresso a um ensolarado torpor. Num gesto contorcionista, aproveitou ainda para desatar as alças do bikini, mostrando dedicação à uniformidade do bronzeado nas costas.

Aos dois pássaros que eu antes observara juntara-se entretanto uma gaivota, debicando uma qualquer criatura marinha cujo cadáver disforme se embrulhara no requebrar das ondas.

Um casal de estrangeiros, duas criaturas rosadas, muito louras, com óculos de sol e os sorrisos satisfeitos de quem logrou cumprir as férias num lugar exótico, passaram depois a correr, salpicando-se no mar e afugentando temporariamente as aves.

Decorrem alguns minutos, não me recordo se muitos se poucos, e eis que escuto um grito.

Quando me volto na direção do som, vejo a mulher saltar da toalha, tentando depois cobrir o peito exposto pelo repentino pulo, enquanto, com a ajuda do marido, arrastava atabalhoadamente as suas coisas em direção às dunas, fugindo da uma onda que os submergira por completo, surpreendendo-os tão subitamente que não lhes foi permitida reação atempada.

Durante o desastre, a água salgada entrou para a geleira. Ainda assim, o marido, que tentava salvar a preciosa melancia, pedia à mulher, num tom mais de ordem do que de súplica, que prendesse a merda do sutiã, temendo que os homens na praia lhe vissem os seios.

Nada pode deter o avanço da maré: resta-nos evitar a submersão e esperar pelo inevitável recuo para recuperar o território perdido.

Em 1016, morto Ethelred, rei de Inglaterra, Edmund “Ironside” (c. 933-1016), assim chamado, segundo as crónicas, à conta da sua força prodigiosa, foi quem lhe sucedeu no trono. Mas enquanto a população jurava ainda fidelidade ao novo rei, uma frota dinamarquesa cercava já Londres.

O jovem Edmund, durante o seu curto reinado de um ano, travou numerosas batalhas com os dinamarqueses, liderados por um igualmente jovem Canuto (c. 995-1035 AD). De todas se saiu Edmund vitorioso, até que a traição de um dos seus súbditos, um homem chamado Edric (ou Eadric) Streona, lhe mudou a sorte. Em Essendune, batalha travada no Essex, quando Edmund, depois de um combate sem tréguas, se chegava já perto de Canuto, Edric, espírito pérfido, terá gritado para as tropas inglesas «Fujam, Ingleses! Fujam, Ingleses, porque Edmund está morto», retirando-se do campo de batalha com os soldados que comandava. A mortandade entre os ingleses, desorientados e desmoralizados pela dissimulação de Edric, foi tremenda. Edmund sobreviveu, é certo, mas as suas hostes reduziam-se.

Quando pouco tempo depois de Essendune os monarcas em disputa preparavam novo recontro, os nobres, esgotados pela sangria da guerra, sugeriram que, uma vez que eram aqueles dois homens, Edmund e Canuto, quem disputavam o trono, deveriam ser apenas eles a decidir o dilema: «Porque somos tão tolos que tantas vezes púnhamos as nossas vidas em perigo? Que aqueles que desejam reinar sós decidam a disputa sós.»

Quando o duelo se deu, os dois contendores lançaram um contra o outro e as suas lanças esmagaram-se contras as poderosas armaduras que envergavam. A refrega decidir-se-ia no gume das espadas que os reis empunhavam. O poderio físico de Edmund impôs-se, e Canuto, temendo a derrota, propôs que dividissem os reinos. Segundo o cronista que nos relata o episódio (e nem todos o mencionam), Edmund, comovido pela proposta de Canuto, aceitou a divisão de Inglaterra com o dinamarquês e, por entre as lágrimas do povo, reteve Wessex.

Não foram precisos muitos dias, no entanto, para que o reinado de Edmund terminasse. Um filho de Edric, aquele mesmo traidor de Essendune, dissimulado no casebre onde o poderoso Edmund se dirigia para aliviar as suas necessidades fisiológicas, apunhalou-o nas entranhas quando este se encontrava de calças descidas. Morte ignóbil a de Edmund Ironside, feito de que Edric, logo que informado do sucesso da repugnante missão do filho, se apressou a dar notícia a Canuto, esperando alvíssaras.

O dinamarquês manifestou aparente regozijo pela notícia, assegurando a um Edric feliz que o iria exaltar. E assim fez, decapitando-o sem demora, e exibindo-lhe a cabeça na Torre de Londres. Ilustração tocante, se outra fosse necessária, de que a traição, de facto, não agrada nem àqueles a quem aproveita.

Canuto assumiu, então, o trono de Inglaterra, que juntou ao da Dinamarca, onde combateu e derrotou os vândalos. Apoderou-se também da Escócia e da Noruega, espaço mítico de que se fez também rei.

De acordo com Henry de Huntingdon (c. 1088-1157 AD), o cronista cujo relato dos acontecimentos temos vindo a seguir, o consolado de Canuto foi o mais grandioso reinado até então, não apenas pelos feitos bélicos, mas também por aspetos singulares da conduta do monarca. Um dos episódios que o cronista relata como evidência da grandeza de Canuto decorre numa praia e, à sua maneira, tornou-se mais célebre do que qualquer batalha que o dinamarquês haja travado.

Assim, certo dia, cansado da adulação sabuja dos seus cortesãos, homens que não se cansavam de lhe cantar as glórias e o poder, Canuto terá ordenado que pousassem o seu trono na areia de uma praia e sentenciou à maré brumosa detivesse o seu avanço, o que fez com as seguintes palavras: «Também vós estais sujeita às minhas ordens, tal como a terra em que me sento é minha; e ninguém jamais resistiu às minhas ordens com impunidade. Ordeno-vos, por isso, que não transbordes para a minha terra, nem te atrevas a molhar os pés e as vestes do teu senhor.» E então, sentando-se no trono, com toda a corte à espreita, Canuto propôs-se esperar até que o decurso do tempo demonstrasse a submissão do oceano à sua vontade.

Sucede que a maré, previsivelmente indiferente à majestade de Canuto, prosseguiu o seu progresso areal acima, até que viram chegado o momento em que o augusto rei, com os pés e as pernas molhadas, se viu forçado a pular do trono alagado.

Consumada a lição, Canuto terá admoestado as testemunhas de tão singular evento para o quão «(…) vazio e sem valor é o poder dos reis, já que nenhum é digno do título, a não ser Ele a quem o céu, a terra e o mar obedecem graças a leis eternas». Desde esse dia, Canuto não voltou a usar a sua coroa de ouro.

Palavras humanas não bastarão, de facto, para deter uma maré.

 

A Revolução: preia-mar

 

O caráter oscilante da maré dissimula a direção do movimento no embalo dos seus avanços e recuos, adormecendo-nos para o perigo da submersão, que, pelo menos simbolicamente, pode redundar em tragédia.

Em Maria Antonieta: Retrato de uma  Mulher Vulgar (1932), obra de Stefan Zweig, a perturbante dinâmica revolucionária é expressa na imagem de uma maré que sobe, como a do meu casal com a geleira atulhada de melancia ou a de Canuto esperando no seu trono.

Como é sabido, a preia-mar não se consuma num estalar de dedos, mas aos repelões, num baloiçar em que à vaga trovejante sucedem, em regra, ondas amenas, cuja serenidade induz a sensação de quietude doce que nos avivará o choque quando um derradeiro avanço do oceano nos levar, enfim, na enxurrada.

Porque a revolução política se nos afigura quase sempre como um instante único, condensado e arrebatador, a evocação do movimento pendular das ondas neste contexto parece descabida. Contudo, se nos demorarmos na metáfora encontramos-lhe alguma utilidade, sobretudo quando atentamos com mais detalhe na cronologia das revoluções.

Após 1789, o suposto ano fatídico da revolução francesa, abalados pelo primeiro espasmo de crueldade popular, expresso pelas cabeças ensanguentadas dos guardas reais empaladas nas pontas das ferrugentas lanças revolucionárias, Luís XVI e Maria Antonieta puderam, ainda assim, respirar de alívio durante os períodos de acalmia que invariavelmente se sucediam aos arremedos de violência. Ora insultados, ora aclamados, os monarcas foram, apesar de tudo, vivendo…

Mas a maré, essa, subia ainda, imparável…

Stefan Zweig descreve com minúcia uma tormentosa sucessão de estados de espírito; os dias em que Maria Antonieta se comove com a possibilidade de fuga, atropelados pelo desespero que sobrevém ante o apertar do cerco; o alívio temporário que permite sonhar um retorno à normalidade pretérita, logo tomado de assalto pelo cíclico recrudescimento da opressão… E este balanço infernal vai sendo vivenciado durante quatro anos longos anos até que no paroxismo do Terror – que se inicia, como é sabido, somente em Setembro de 1793 (prolongando-se até à morte de Robespierre, em Julho de 1794) – Maria Antonieta, entretanto separada dos seus filhos, prematuramente envelhecida, e com os cabelos outrora dourados barbaramente mutilados pelo carrasco[1], é obrigada a ajoelhar-se no cadafalso da Revolução, expondo ao cutelo da guilhotina o seu pescoço imperial.

Marie-Antoinette (1755-93) on her way to her execution, 1793 (pen & ink on paper) by David, Jacques Louis (1748-1825) (after)
pen and ink on paper
Bibliotheque Nationale, Paris, France
French, out of copyright

A Revolução que vivemos

 

Também hoje existimos no rumorejar do vaivém de uma maré revolucionária.

Aqueles que ambicionam conservar a civilização que o Ocidente histórico-geográfico legou confrontam-se com forças revolucionárias apocalípticas.

Oscilamos entre o choque causado por uma qualquer irrupção extrema dessa energia maníaca e a felicidade proporcionada pela envolvente experiência do conforto que constitui a normalidade do nosso relativamente próspero quotidiano.

Jantamos com a família, bebemos uma cerveja com os amigos, lemos um livro, assistimos a um concerto com a mulher (ou homem) que amamos, passeamos com o nosso cão, entretidos com os nossos pensamentos ou uma canção que escutamos enquanto fazemos exercício… Mas dá-se também o anúncio de que na China se manipularam os genes de um bebé, alterando tecnologicamente a espécie. E na China, aprendemos também, testam-se já sistemas tecnológicos para monitorizar e classificar, com minúcia e diligência, todas as dimensões do comportamento dos cidadãos, imiscuindo-se o algoritmo no pensamento, nas ideias, nos valores e nas valorações estéticas e emocionais mais íntimas da multidão… Quase em simultâneo, os jornais anunciam que os governos europeus, sem consultar quem quer que seja, se propõem adjudicar ao governo chinês a implementação do protocolo 5G, a infraestrutura em que supostamente assentará o futuro… A maré avança efetivamente…

Nos escritórios, nos campos, nas oficinas, nas fábricas, todos trabalhamos procurando significado e dignidade, emoldurados por direitos laborais, e ambicionando sempre mais. Protestamos ante os abusos, e perseguimos o sonho de sermos senhores de nós mesmos… Mas eis que acordamos de um Domingo de Páscoa atónitos ante um massacre nas igrejas do Sri Lanka… A maré, ainda e sempre…

Sentamo-nos num estádio a assistir a uma partida de futebol, distraídos das obrigações e do sacrifício, mas eis que banais competições desportivas nos deslumbram com o espetáculo surreal de humanos nascidos com pénis e testículos a erguer os braços em sinal de vitória, em triunfo sobre atletas nascidas com ovários e vaginas. Mary Gregory, que tendo começado os seus dias como homem se afirma agora mulher, desintegrou numa única tarde quatro recordes de halterofilismo feminino; e é exigido ao público congratule Gregory pela vitória? Houve sequer uma vitória? Um movimento ideológico revolucionário procura, a todo o custo, convencer-nos que os homens podem, afinal, ser mulheres, redefinindo a linguagem, forçando-nos a ignorar os nossos sentidos e a reordenar intelectualmente o real…

Os respingos da rebentação começam a molhar-nos a todos, enquanto a maré prossegue o seu avanço.

O catálogo de recortes de jornal podia avolumar-se, mas parece desnecessário prosseguir nesta senda. A demonstração faz-se abrindo os olhos e a atenção.  Sem dramatismo sentimentais, importa aceitar que na imensamente complexa confluência de inovações tecnológicas, deslocações populacionais e radicais mutações culturais, borbulha uma vontade de destruição milenarista.

Os revolucionários hodiernos não visam a extinção da vida, mas a extinção da vida como a desejamos continuar a viver. A revolução não almeja a extinção, mas o decesso civilizacional.

O adormecimento que a ondulação distante induz – as vagas que submergem já outros, mas que a nós, por enquanto, ainda não tocam – leva-nos a olvidar as características da dinâmica revolucionária, pejada de recuos, mas obstinada e inexorável.

Esse nosso entorpecimento, no entanto, só nos será possível até que uma vaga de apetite voraz varra do nosso mundo o que custou séculos a edificar, e das nossas vidas o pão que, com o suor do nosso rosto, como comanda o Génesis, conquistámos para nós e para os nossos.

Ameaça sombria, esta, mas o que fazer? Estaremos condenados?

Em parte, sim, parece evidente. Mas não nos ensina a história que os revolucionários se irão devorar si mesmos? Porquê, então, a preocupação? A experiência das gerações que nos precederam indiciam que ao Terror se seguirá inevitavelmente a ressaca, e a todo o excesso a demanda por normalidade.

Lamentavelmente, essa certeza de que o futuro vingará a destruição, e que à conquista se seguirá a reconquista, não é quanto baste para que nos conformemos com o sofrimento, nosso e dos nossos.

A existência é finita, é certo, mas comprometida com a felicidade para além do seu tempo. A quem ama o futuro, encarnado nos seus filhos e na civilização que lhes moldará a felicidade vindoura, o niilismo não pode constituir senão um refúgio na derrota.

O teólogo protestante americano Reinhold Niebuhr criticou o movimento pacifista que grassava no período que antecedeu a II Guerra Mundial afirmando que os seus proponentes se revelavam incapazes de «(…) distinguir entre a capitulação ante a tirania e a paz do Reino de Deus.» Coloquemos de lado a evocação religiosa e atentemos apenas na essência da afirmação. Num paradoxo de difícil (mas possível) resolução, a resignação ante a inevitabilidade da maré revolucionária assinala não o reconhecimento sóbrio da natureza da realidade ou da adequação das teses revolucionárias, mas antes uma capitulação ao fácil.

A metáfora da onda que nos é proposta por Zweig deve, por isso, ser refinada e despojada do seu fatalismo, clarificando que a subida da maré pode culminar num arrebatamento apocalíptico, mas que admite também, se compreendermos os tempos e nos predispusermos a agir, uma superação apoteótica.

O sucesso das gerações não se mede pela glória efémera de suspender o tempo e as marés, mas antes pela capacidade de conservar o que é virtuoso e manter uma resistência criadora ante o terror.

 

Os Demónios

 

Mas ante a ameaça, impõe-se a questão: são demónios, estes revolucionários? Encontramo-nos, por algum acaso, sequestrados numa dimensão maniqueística da história, num combate entre as Trevas e a Luz?

A gnóstica resposta dual, como a tradição católica recomenda, deve ser rejeitada.

Embora empenhados no afã legítimo de conservar o que nos é precioso, urge também reconhecer que o impiedoso instinto de revolução é, quase sempre, inspirado por indignação também ela prenha de legitimidade. Os libelos acusatórios ínsitos nos panfletos revolucionários evocam, com frequência, ofensas reais, ainda que o diagnóstico das culpas e das causas se faça, em regra, com crudelíssima e juvenil simplicidade.

Torna-se, por isso, imperiosa a captura do impulso revolucionário, encontrando na raiva que lhe arde nas entranhas o impulso de reflexão e empatia que nos permite aperfeiçoar a justiça terrena.

Zweig, analisando a atitude de Maria Antonieta ante a revolução, escreve o seguinte: «Como só vê, em primeiro lugar, a violência (…) Nada vê, nada compreende sobre as conquistas de um movimento que nos transmitiu os mais nobres princípios das relações humanas: a liberdade religiosa, a liberdade de opinião, a liberdade de imprensa, a liberdade de comércio e a liberdade de pensamento…» Conclui o parágrafo com uma nota de tristeza, até porque, como a sua obra denota, o autor sente quase ternura por aquela menina-princesa, criada numa sumptuosa redoma de ouro e cristal, impossível de reconstituir na experiência do comum dos mortais e que, como o mais ténue esforço de empático permitirá concluir, não poderia ter deixado de afetar a mundividência daquela infeliz: «E assim acontece o que era fatal que acontecesse, como Maria Antonieta é injusta para com a revolução, esta é cruel para com ela.»

Não me parece seguro concluir que sem a revolução francesa não se teria também dado o progresso benévolo que Zweig canta, permanecendo a França e o Ocidente condenados ao eterno e requintado jugo absolutista. Agora, o que julgo certo é que o sofrimento e a injustiça de que constituíam a canga das massas comuns eram efetivamente males reais e que, como tal, careciam de remédio.

O apático Luís XVI, a superficial Maria Antonieta foram os bodes expiatórios sobre o dorso dos quais os sacerdotes da revolução fizeram expiar pecados e insuficiências que tocavam a todos: vítimas e carrascos. É, por isso, o pesado e inquietante dever do bonus pater familias o de combater a revolução e, em simultâneo, de lhe fazer justiça.

 

Varrer os Monstros

 

«The proletarian cultural revolution is aimed not only at demolishing all the old ideology and culture and all the old customs and habits, which, fostered by the exploiting classes, have poisoned the minds of the people for thousands of years, but also at creating and fostering among the masses an entirely new ideology and culture and entirely new customs and habits — those of the proletariat. This great task of transforming customs and habits is without any precedent in human history. As for all the heritage, customs and habits of the feudal and bourgeois classes, the proletarian world outlook must be used to subject them to thoroughgoing criticism. It takes time to clear away the evil habits of the old society from among the people. Nevertheless, our experience since liberation proves that the transformation of customs and habits can be accelerated if the masses are fully mobilized, the mass line is implemented and the transformation is made into a genuine mass movement.»

Editorial do Diário do Povo chinês (Renmin Ribao), intitulado “Sweep Away All Monsters” e publicado na Peking Review, Vol. 9, #23, Junho 3, 1966.

 

No coração da Revolução Cultural chinesa, e, parece-me, no de qualquer movimento revolucionário, encontramos o frenesi de destruir as tradições que o editorial que transcrevi identifica como essenciais à preservação de uma alma nacional, a saber: os velhos costumes, hábitos, cultura e ideias.

A lógica é a de que a substituição do velho pelo novo acarretará o advento do futuro utópico e idealizado que a vanguarda revolucionária congeminou nos seus manifestos. Os textos sagrados da revolução são redigidos por aquela elite profética com o ardor e a arrogância que constituem, em simultâneo, a graça e a maldição da juventude. Os preços a pagar em sofrimento são desconsiderados ante a glória do ideal.

Eric Hobsbawn o historiador relapsamente comunista, no final da sua longa vida, foi questionado se a morte de 15 a 20 milhões de pessoas teria sido justificada caso o «amanhã radioso» do comunismo tivesse triunfado. Como podemos observar na gravação da entrevista em questão, o decano dos historiadores marxistas não hesita sequer antes de pronunciar o seu enfático e convicto «yes».

A fenomenal prepotência, hipocrisia e leviandade de movimentos como o Extinction Rebellion ou da retórica propalada por aqueles que apresentam o New Green Deal como estandarte, indiferentes ao custo humano das suas propostas (e certamente confiantes que para si se justificam isenções das restrições a impor às massas) encontra paralelo nas alas mais radicais dos movimentos LGBTQ, que nega a diferença biológica entre os géneros, ou do cientismo ateu, a quem inconfessadamente repugnam quaisquer reais pejos morais no que concerne à investigação científica em domínios como o da genética ou da biologia.

No site do movimento Extinction Rebellion, quando se listam as exigências, a primeira é a de que os governos digam a verdade aos cidadãos… E depois, claro, o movimento dita qual será, afinal, o conteúdo dessa “verdade” que é permitido articular.

A segunda exigência, o corte das emissões de CO2 até 2025, teria consequências absolutamente destrutivas relativamente ao modo de vida ocidental… Nada que preocupe os revolucionários, claro, enquanto redigem os seus textos num computador e os divulgam numa internet propulsionada por tudo aquilo que afirmam desprezar: capitalismo, indústria, exércitos, competição e, claro, humanos.

O poder político, para o movimento Extinction Rebellion, deveria ser devolvido a uma assembleia de cidadãos. O poder nas ruas, nas praças, ditado, claro está, pelos demagogos que gritem mais alto e cuja clique seja mais eficaz a silenciar dissidentes.

A leitura da obra de Zweig, quando descreve o ambiente caoticamente sanguinário desse poder nas ruas, ou uma qualquer história da revolução russa, deveria ser quanto baste para nos avisar dos perigos embutidos nesta demagogia adolescente.

Não esquecendo, porém, que, em regra, subjaz à revolução uma nota de verdade e de justa revolta, é preciso perceber o que move aqueles que buscam na radicalidade a resposta para a injustiça.

Ora, o que parece unir os proponentes da revolução – desta que enfrentamos e das que a precederam – é a firme convicção de que as suas inteligências individuais e contemporâneas serão quanto baste para moldar o destino coletivo da forma mais adequada, transformando, de uma penada, a realidade.

Assente em tal convicção, conclusões morais e culturais seculares são postas de parte com uma mescla de desprezo e entusiasmo, com absoluta indiferença por parte dos revolucionários pela inabarcável complexidade e imprevisibilidade da realidade, absolutamente convictos que estão de que todas as possíveis consequências da sua adorada revolução são inteiramente antecipáveis ou, na pior das hipóteses, domesticáveis.

Decorre também das características psicológicas nucleares da vanguarda revolucionária que todos quantos não se prostrem em genuflexão ante a sua sabedoria são necessariamente percecionados como estúpidos, conduzidos por demónios, ou, em alternativa, como se dos próprios demónios que pastoreiam estúpidos se tratassem. Para qualquer das categorias, a misericórdia da vanguarda revolucionária é a mesma que o Deus do Antigo Testamento reserva aos inimigos dos seus eleitos: nenhuma.

Certezas graníticas, simplificação no diagnóstico das causas e remédios, exigências de sacrifício derradeiro, diabolização dos oponentes e, claro, santificação do combate. Numa palavra: totalitarismo.

Mas como explicar que de impulsos generosos e justos de chegue ao horror?

Se impõe o bom-senso que não sejamos injustos com a revolução, importa também a lucidez de perceber que àqueles que clamam pelo ideal rapidamente se vão juntar, nas palavras de Zweig, «(…) os insatisfeitos, os endividados, os aristocratas atirados para segundo plano, os burgueses aduladores que não alcançam emprego, os advogados sem clientes, os demagogos e os jornalistas, todas essas forças efervescentes e estuantes da vida que formarão mais tarde as tropas de assalto da Revolução.»

Refere o trágico autor austríaco que na «(…) Revolução Francesa, como em qualquer outra, dois tipos se desenham claramente: os revolucionários que o idealismo guia, e esses que são levados pelo ressentimento; uns, mais bem dotados que a multidão, querem elevá-la até sio, fazê-la atingir o seu nível, a sua cultura, a sua maneira de viver, aumentar a sua liberdade. Os outros, que foram durante muito tempo infelizes, procuram vingar-se nos mais felizes, e querem impor o seu poder aos senhores da véspera.»

E Zweig alude também a um fenómeno incontornável da dinâmica revolucionária, que, no borbulhar de intelectuais e medíocres, de idealistas e de sádicos, de almas puras e de sanguessugas, explica muitos dos excessos, revolução. «Mas, toda a revolução é uma avalanche, que rola sem cessar, sempre para a frente. E quem a dirige e quer continuar a ser seu chefe, é obrigado a correr com ela, sem parar, para manter o equilíbrio; é impossível uma pausa, todos os partidos o sabem e receiam ver os outros passarem à frente». Todos se teme uns aos outros: e «(…) é este medo contagioso que os grupos têm uns dos outros que os lança na corrida desenfreada, e o receio de passarem por moderados – receio que todos sentem – é que dá à revolução francesa este impulso torrencial que a empurra para tão longe do seu verdadeiro fim.»

Ora, o combate sem tréguas aos ataques desferidos por ressentimento, inquinado por malícia e inveja, não deve fazer esquecer as ofensas e o sofrimento em que se funda o idealismo, levando a que, movidos por mágoa e despeito, se ultrajem uns pelos pecados dos outros. Não devem os excessos de uns fazer-nos perder de vista as razões puras e sinceras de outros.

O que não significa também que o idealista, ainda que agitado por fervorosa e sincera indignação, não seja, pelos motivos já aduzidos, o mais cruel e perigoso dos inimigos da civilização. Será o ressentido, embrutecido e bisonho, a torturar nos Gulags, mas a licença para o mal provirá do intelectual, no seu gabinete técnico, devidamente mandatado pela assembleia dos cidadãos.

Diz Shigalyov, em “Os Demónios”, o magistral romance de Dostoevsky: «Enleei-me nos meus próprios dados, e a minha conclusão contradiz diretamente a ideia original de onde parti. Partindo de uma liberdade ilimitada, conclui com despotismo ilimitado.»

A reação adequada aos conservadores não pode consistir, por conseguinte, na capitulação a qualquer dos revolucionários – o idealista ou o pantomineiro – mas antes num esforço genuíno e sincero para despojá-los de capital de indignação, e da consistente mobilização daqueles que nos são queridos em torno daquilo que de precioso foi edificado pela nossa história.

 

(continua…)

[1] Um esquiço de David – esse espírito de lacaio, como o definiu Danton – mostra Maria Antonieta a caminho da guilhotina, desumanizada pelo aviltante corte dos cabelos, humilhada publicamente pelo lento avanço da carroça aberta onde foi transportada pelas ruas de Paris, desde a Conciergerie até ao local da sua execução, na atual Place de la Concorde.

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