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Um genocídio ocultado: o inquérito de Tidiane N’Diaye

Em 2008, Tidiane N’Diaye, um franco-senegalês publicou Le Génocide Voilé. O tema do livro é o comércio esclavagista levado a cabo pelos muçulmanos em África desde o século VII e a tese de que, em escala, violência e duração, este tráfico hediondo superou o crime transatlântico promovido pelos europeus entre o século XVI e XIX.

O interesse do inquérito não passa simplesmente pelo relato factual, já que, em grande medida, os eventos são conhecidos, mas antes pelo enfoque colocado nalgumas dimensões do tema que, por qualquer motivo, surgem veladas nos manuais de história destinados ao grande público.

1. Desde logo, o fenómeno da castração em massa dos escravos negros perpetrada pelos muçulmanos. De facto, é comum escutarmos referências aos eunucos no Médio Oriente, mas raramente nos damos conta que, ao contrário do que sucedia na Europa com infelizes como os castrati, mutilados por motivos espúrios, mas recrutados entre a população nativa, os eunucos no mundo muçulmano eram, com frequência, “estrangeiros”, a maior parte das vezes homens feitos escravos ainda na infância, depois de capturados nas brutais razias perpetradas pelos esclavagistas nos sertões africanos, ou descendentes de escravas negras, nascidos já no mundo islâmico (sendo que o aborto e o infanticídio eram práticas correntes, daí a reduzida mestiçagem nas sociedades islâmicas).

N’Diaye refere-se a um fenómeno de “extinção étnica por castração massiça”.

Assim, a maioria dos milhões de homens africanos deportados para o Oriente não deixou descendência, ao contrário do que sucedeu no Novo Mundo, onde a partir de um número possivelmente inferior de vítimas (as estimativas são muito variáveis e, sobretudo no que concerne ao movimento esclavagista árabo-muçulmano, a escassez de fontes escritas por parte dos perpetradores dificulta uma avaliação rigorosa dos números) e um período bem mais reduzido do abominável comércio, a descendência africana se tornou uma minoria relevante nas populações americanas hodiernas, permanecendo marginal no Médio Oriente.

2. Por outro lado, N’Diaye sublinha o racismo inerente à atitude dos povos árabes e berberes em relação aos negros, pelo menos a partir de um determinado momento temporal. Se é verdade que nos textos iniciais a distinção entre “raças” não faz qualquer aparição relevante, rapidamente surgem referências preconceituosas e pejorativas em relação aos negros. A linguagem iria justificar a opressão. Mesmo nos casos de conversão, que teoricamente deveria ser impeditiva da escravização segundo a lei islâmica, o preconceito viria a justificar a violência.

Ou seja, as populações da África subsariana viram-se vitimizadas e ofendidas não apenas pelos europeus, mas também pelos árabes, turcos e berberes. As suas culturas, algumas das quais incrivelmente sofisticadas, por manterem uma base oral e modelos ideológicos completamente distintos daqueles que eram lei na Europa e no Médio Oriente (e.g. patriarcado e teísmo), viram-se relegadas para um submundo de alegada primitividade. E dessa menorização cultural da diferença partiu a “autorização” para a mais repulsiva opressão.

3. O terceiro aspeto sublinhado pelo autor é o da duração e persistência da escravatura no mundo islâmico e dos quadros-mentais que lhe dão acolhimento.

O início da escravatura em África, pelo menos enquanto sistema predatório comercial organizado, remonta ao século XVII, quando, logo em 652, o general árabe Abdallah bem Saïd, estabeleceu um acordo (um bakht) com os soberanos da região do atual Sudão mediante o qual estes se obrigaram a fornecer anualmente centenas de escravos.

Iniciou-se, deste modo, o tráfico negreiro árabo-muçulmano na África subsariana que, em rigor, perdura até hoje, como os recentes mercados de escravos organizados na Líbia ou os perpétuos relatos de esclavagismo no Sudão colocaram em evidência.

A abolição da escravatura, imposto pelos ingleses na primeira metade do século XIX (o Slavery Abolition Act é de 1833) por motivos sobretudo económicos (o que não significa que muitos dos seus proponentes não fossem movidos por impulsos genuinamente morais) visou sobretudo o comércio transatlântico, atingindo implacavelmente os negreiros portugueses (a escravatura no Brasil apenas foi abolida em 1888) e americanos (a Emancipation Proclamation de Abraham Lincoln data de 1863). No entanto, no Índico, os mercados de Zanzibar, por exemplo, continuaram pujantes sob a passiva vigilância britânica, como David Livingstone testemunhou com repulsa em 1868.

Mas para melhor perceber a extraordinária e quase incompreensível persistência do fenómeno, precisamos aproximar-nos do presente.

Assim, a proclamação do Mesutiet, a abolição da escravatura na Turquia, data apenas de 1918. O último mercado público de escravos encerrou em Marrocos apenas em 1920. Na Mauritânia, o término “oficial” da escravatura dá-se apenas em 1981 (foi o último país do mundo a fazê-lo) e na Arábia Saudita e Iémen em 1962.

Os mercados de escravos na Líbia do século XXI ou a grotesca realidade hodierna da Mauritânia são flagrantes exemplos da inexplicável anomalia ética que perdura no mundo islâmico [note-se que fenómenos de escravatura sexual, mas também laboral, persistem na Europa e no Novo Mundo, tal como ciclicamente noticiado em reportagens que comovem com a mesma facilidade com que são esquecidas].

4. De igual importância, a complacência, duplicidade e, nalguns casos, contribuição das potências ocidentais, em especial do Reino Unido e da França, no que concerne ao horror da escravatura árabo-muçulmana.

Se é verdade que inúmeros europeus como Livingstone condenaram o tráfico de escravos, outros, como sucedeu com Richard Burton, sentiam-se mais próximos do exotismo e sofisticação da cultura muçulmana, encarando os africanos subsarianos como criaturas embrutecidas e indolentes, que beneficiavam com a subjugação que os vitimava.

 

Referindo-se a uma das etnias costeiras de Zanzibar, Burton refere que até outros selvagens os chamavam de servis e que o «[o] infalível instinto da humanidade marcou-os para a escravatura, e eles aceitaram prontamente a posição.» (Zanzibar – City, Island, and Coast – 1872).

5. Finalmente, N’Diaye alude à bizarra indiferença dos ocidentais, dos muçulmanos e dos próprios africanos perante o sucedido. Por qualquer motivo, os pecados ocidentais são evidenciados e os islâmicos ocultados. Caracteriza a atitude africana como uma modalidade de síndrome de Estocolmo, possivelmente motivada pela islamização de uma parte substancial de África, mas também pelo efeito do colonialismo europeu que, no século XX, tendo-se imposto aos muçulmanos também (sobretudo com a derrocada dos Otomanos), transformou-os em “irmãos” no sofrimento e, de certa forma, expurgou a perceção de que também eles foram perpetradores.

Em Histoire de L’Afrique Noire (Paris, 1972), de Joseph Ki-Zerbo, um dos primeiros autores africanos a escrever sobre a história do seu continente, o autor sustenta o seguinte sobre a escravatura árabe:

«Certos autores especulam sobre o facto de o tráfico de escravos pelos Árabes ter durado muito mais tempo, pretendendo que ele arrancou muitos mais homens da África Negra. Aqui é necessário distinguir entre os traficantes, que eram com frequência malfeitores sem escrúpulos, e os que se serviam a maior parte das vezes dos pretos para fins domésticos. As mulheres pretas eram, ao que parece, muito cobiçadas noa haréns pela frescura da pele. Quanto aos homens eram empregados seja como mercenários, seja na guarda dos palácios. Eram então, em geral, castrados, e isso em parte para não procriarem uma casta que se poderia tornar perigosa para o poder. Certos centros mossis e haúças haviam-se especializado, assim, na “preparação” dos eunucos destinados ao Próximo e ao Médio Oriente. Não obstante esta tribulação física, e embora, por vezes, como em Zanzibar, as plantações tenham tardiamente empregado mão-de-obra negra servil, parece impossível objetivamente pôr no mesmo pé o tráfico oriental de escravos e o do Atlântico, que se fazia com meios terrivelmente mais poderosos (pg.282, edição das Publicações Europa-América)

Este parágrafo, como é fácil perceber, condensa toda uma atitude intelectual sobre a história do sofrimento em África.

(os quadros são de Jean-Léon Gérôme)

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