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Sophia Isaakovna Dymshits

A mulher na imagem é Sophia Isaakovna Dymshits… Magra, com uma pose retraída, peito caído e expressão plácida, mas confiante.

Sophia, quando a fotografia foi tirada, era amante do homem que surge sentado ao centro. De facto, de 1917 a 1921, mantém uma relação com Vladimir Tatlin, um artista vanguardista soviético, de quem se torna assistente e através do qual emerge a sua relação com o movimento construcionista soviético.

Sophia nasceu na Rússia, em São Petersburgo, em 13 de Abril de 1884 e faleceu no mesmo local, mas – por bizarria da história – noutro país, a União Soviética, e, de alguma forma, numa outra cidade também, Leningrado. Trabalhou como pintora e artista gráfica, desenhando pósteres e colaborando com diversos artistas, também como modelo.

O seu pai era Isaac Dymshits, um comerciante abastado. Sophia casou cedo, em 1905, na Suiça, com o filósofo anarquista Isaac Rosenfeld. No ano seguinte iniciou os estudos de arte sob a tutela de Sergei Yegorov, em São Petersburgo, que continuaria depois, a partir de 1909, com Léon Bakst e Mstislav Dobuzhinsky. Em 1910, quando finalmente obtém o divórcio de Rosenfeld, está em Paris, estudando com Charles Guerin na Académie de la Palette.

Os seus trabalhos, pelo menos os que encontrei, não se distinguem de tantos outros da vanguarda russa e, mais tarde, soviética do início do século XX.

Mas se hoje escrevo sobre Sophia, tal não sucede porque os seus trabalhos gráficos foram notáveis ou sequer porque colaborou nalguma obra maior da arte moderna (na imagem acima, Sophia colabora com Tatlin na maqueta de uma obra que este propôs, já em plena ditadura Bolchevique, mas que não viria a ser construída).

Na verdade, se Sophia é hoje  lembrada em obscuros blogues russos, a artista deve-o a duas escolhas: primeiro, quando era ainda muito nova, tornou-se amante de Alexey Tolstoy, um escritor soviético com alguma relevância; e, depois, num certo momento da sua vida, permitiu que alguém tirasse a fotografia abaixo.

Encontrei esta estranha imagem enquanto procurava por Masha Saraban, uma cantora de cabaret judia que foi a concubina favorita do atamã Grigorii Semenov, ambos figurantes notórios da estória engendrada por Hugo Pratt quando Corto Maltese se deslocou à Sibéria, nos tempos cruéis da guerra civil russa.

Não sei por que motivo, em vez de Saraban, foi com Sophia Dymshits que me deparei durante as deambulações induzidas pela revisitação do apocalipse da aristocracia russa.

A imagem foi captada no Verão de 1909, na Crimeia, em Koktebel, na biblioteca de Maximilian Voloshin, o poeta simbolista que até aqui apenas conhecia por ter sido um dos retratados de Boris Kustodiev (ver imagem) e, claro, pela notícia de ter acolhido centenas de artistas na sua casa na Crimeia durante a terrível guerra civil russa.

Mas a mulher na fotografia, como referi, é Sophia Isaakovna Dymshits e, naquele Verão de 1909, com vinte e cinco anos de idade, encontrava-se na Crimeia acompanhada de Alexei Tolstoy, com quem havia iniciado uma escandalosa relação amorosa algum tempo antes. Alexei era casado e tinha já um filho, criança que morreria um ano depois do início desta relação ilícita, isto sem que o escritor manifestasse grande desgosto ou sequer vontade de visitá-lo no período de doença que antecedeu o trágico desfecho, em 1908.

O caso com Sofia remonta a 1906. Numa viagem a Dresden, Alemanha, a jovem conhece Alexei Tolstoy, de quem se tornará amante um pouco mais tarde e com quem se manterá em união de facto até 1914. E é portanto durante o idílio com o conde Tolstoy, em 1909, que se deixa fotografar com o peito descoberto, como se tivesse maliciosamente descido a alça do vestido ou robe, sorrindo para a câmara.

Não se sabe quem terá sido o fotógrafo, mas não é impossível que a imagem tenha sido colhida pelo próprio Voloshin, que no seu espólio deixou diversas fotografias tiradas no mesmo período.

Existe, por exemplo, uma fotografia de 1906, de uma tal M.V. Sabashnikov, uma mulher com quem Voloshin manteve um breve caso, tirada praticamente no mesmo local. 

De resto, a intimidade entre Tolstoy, Voloshin e Sophia torna-se mais evidente ainda quando, no Outono, se instalam todos num apartamento de São Petersburgo, que partilham também com Gumilyov, outro poeta.

Seja como for, em 1910, Sophia é mãe de um rapaz, que batiza como Alexander Dymshits. E em 1911, nasce Marianna.

Foi Tolstoy, um caráter volátil e questionável, quem, em 1914, rompeu os laços com Sophia, cansado da relação, abandonando-a, o que já antes havia feito à sua primeira mulher.

Sophia viria a casar-se com o arquiteto alemão Hermann Pesatti em 1921 e a união dura até 1939, quando este, depois de ter sido preso e temporariamente internado num campo de trabalho, acaba por quebrar fisicamente e falecer pouco depois da libertação.

Sophia mergulha numa pobreza absoluta já que não teve direito a qualquer pensão estadual, residindo daí em diante em apartamentos comunais soviéticos de Leningrado, onde morre, como já referi, em 1963.

[de Pesatti, não encontrei retrato ou memória]

E muitos anos depois, alguns destes apartamentos comunais de São Petersburgo, o cenário da decadência de Sophia, viriam a ser fotografados por uma francesa, Françoise Huguier, nascida em 1942.

E, se for sincero, apenas descobri, há alguns meses atrás a série de fotografias de Huguier que versa os mesmos apartamentos onde Sophia penou a sua velhice solitária porque, algures no caos imagético da internet, alguém colocou, por motivos inteiramente vulgares, a espantosa imagem que se segue…

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