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Palavras e violência: quando acreditar que o discurso se tornará ação? (um artigo de 2016)

A partir de 1414, na sequência do Debate de Tortosa, o número de judeus convertidos ao cristianismo cresce em Espanha. E, no entanto, rabinos como Yahuda ibn Verga cedo enunciaram, com lucidez presciente, os perigos futuros. Alguns convertidos seriam despojados dos seus bens e finalmente mortos se ficassem em Espanha; outros, só depois de roubados aceitariam a necessidade de fugir e, dessa forma, salvariam, pelo menos, os corpos. Assim, apenas uma terceira categoria, a dos que abandonassem Espanha imediatamente, poderia salvar bens e corpos. O postulado da salvação era, por conseguinte, a aceitação de que o discurso católico, eivado de ameaças sangrentas, redundaria em ação. Anos mais tarde, em Fevereiro de 1483, a Inquisição Espanhola (substituindo a instituição papal), sob a égide do frade dominicano Tomás de Torquemada, viria a institucionalizar de forma sangrenta a perseguição, até aí relativamente espontânea e popular, aos judeus e convertidos, queimando e torturando dezenas de milhares de pessoas, sobretudo nos anos que precederam a traumática expulsão de 1492.

No século XX, os judeus alemães e austríacos, no período entre as guerras, confrontados com a violentíssima propaganda antissemita nazi, tiveram, também eles, de se debater com a cruel dúvida. Manter-se-ia o discurso apenas como palavra, catarse retórica para as frustrações da época? Como sabemos, salvaram-se sobretudo os que cedo perceberam que a palavra presente seria violência futura.

Porquê que apenas alguns lograram realizar tal salto de fé?

Perante um quotidiano estável, a consciência ajusta-se com dificuldade à ideia de que as coisas se podem alterar. O anúncio da mudança por meras palavras ou ações menores que o futuro classificará de proféticas, dificilmente merece confiança. Um artigo é publicado no jornal, um discurso é pronunciado, uma parede vandalizada, mas o dia seguinte amanhece da mesmíssima forma, com o Sol surgindo a Leste e os sons de sempre ecoando familiarmente na rua. Como é possível acreditar que as palavras de ontem serão, talvez a meio da tarde, o tacão da bota que nos esmagará?

 

Time present and time past

Are both perhaps present in time future,

And time future contained in time past.

If all time is eternally present

All time is unredeemable.

What might have been is an abstraction

Remaining a perpetual possibility

Only in a world of speculation.

What might have been and what has been

Point to one end, which is always present.

Footfalls echo in the memory

Down the passage which we did not take

Towards the door we never opened

Into the rose-garden.

My words echo

Thus, in your mind.

But to what purpose

Disturbing the dust on a bowl of rose-leaves

I do not know.

T.S. Elliot, Burnt Norton

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