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Falsas certezas (um artigo de 2016)

Se entendermos enviesamento como a distorção entre aquilo que “vemos” ou “apreendemos” e aquilo que realmente existe, é fácil perceber como a validade operativa da análise (no sentidos cartesiano de decomposição do tópico complexo nos seus elementos mais básicos, de modo a potenciar a compreensão da génese, estrutura, intenção e relações daquele) depende dum policiamento eficaz às falhas epistemológicas do nosso próprio espírito.

Falsas certezas

As falsas certezas surgem quando recorrermos a esquemas intelectuais que dependem de categorias com contornos (ilusoriamente) nítidos (e.g. na atualidade, muçulmanos, direita, esquerda, etc.).

Ocorrem também como produto tóxico de modelos intelectuais que operam com base em conceitos ideais, que não admitem desvios sob pena de falência das conclusões, e onde se supõe que todas as variáveis relevantes são conhecidas. Ou seja, quando tratamos a realidade como um jogo de casino, cujos elementos variáveis são integralmente conhecidos, possibilitando cálculo probabilístico preciso.

Na sua essência, o problema das falsas certezas relaciona-se com a tendência para desvalorizar a nossa própria ignorância sobre o presente (e, por maioria de razão, sobre o passado[1] e o futuro também). Tendemos a sobrevalorizar a informação que temos, desvalorizando a sua incompletude (quantos dados relevantes desconhecemos) e as suas deficiências (qual o real valor, por exemplo, da imensidão de informação estatística e empírica que vai sendo compilada).

Na realidade, melhor seria se partíssemos do pressuposto que certas questões humanas podem ser discutidas e alguns (apenas alguns, porque o fator “desconhecido” é demasiado poderoso para que se possa supor uma antevisão fechada do elenco de cenários possíveis) resultados possíveis contemplados, mas que cálculos válidos e projeções precisas sobre um futuro que não seja quase inutilmente próximo são impossíveis.

1) Analisar categorias utilizadas e verificar que esbatimento das fronteiras poderia destruir a teoria

2) Analisar que regras estamos a pressupor como fixas que, afinal, podem comportar exceções que anulem a validade das conclusões

Falsa confirmação

A falsa confirmação é possível quando o nosso compromisso ideológico, emocional, cultural, tribal ou religioso é de tal modo forte que nos força a selecionar a informação que confirma a nossa ideia (e mais genericamente a nossa mundividência) e a que descredibiliza as evidências que potencialmente a refutariam (e.g. mediante ataques ad hominem contra os opositores ou questionando os interesses subjacentes à posição oposta).

Opera mediante a construção de uma narrativa causal que, quase por definição, será incompleta no que concerne a diversos fatores relevantes, de cuja existência não nos apercebemos sequer ou que tentamos desvalorizar das mais diversas formas, já que se colocam em oposição ao nosso próprio posicionamento.

Este problema assenta em duas fraquezas do nosso entendimento.

Primeiro, a tendência a considerar que, no domínio humano (i.e. fora das ciências exatas ou físicas) um número elevado de dados ou de informação permite estabelecer regras generalizadas. Ora, na maior parte dos casos, embora a consistência estatística permita algumas conclusões, o estabelecimento de regras não é possível, já que um único evento isolado pode alterar o curso dos eventos (paradoxo da galinha, alimentada durante mil dias pelo agricultor e que um dia se aproxima alegremente para comer e é degolada).

O segundo alicerce da falsa confirmação é a tendência para o conservadorismo. Existe em nós (e por bons motivos) uma resistência inata à mudança, que, com frequência, torna mais confortável a persistência no erro do que a adaptabilidade.

1) Formular uma conclusão e, em simultâneo, a pergunta cuja resposta positiva ou negativa (conforme formulação linguística da mesma) refutaria a conclusão – procurando a refutação em vez da confirmação tornará mais fácil a aproximação ao conhecimento sólido

2) Procurar a verdade na negativa, isto é, partindo de uma posição de humildade epistemológica, buscar a verdade por aproximação – e.g. a conclusão de que “nem todos os pássaros voam e caminham” é, mesmo na ausência de informação, mais segura do que a de que “os pássaros ou voam e caminham ou apenas caminham”, já que existe pelo menos uma outra possibilidade (mesmo para aqueles que nunca tenham conhecido o pinguim), nomeadamente a de pássaros que possam eventualmente caminhar e nadar.

[1] Na história há demasiadas variáveis relevantes para o desenrolar dos acontecimentos que naturalmente desconsideramos e informação de igual relevância que desconhecemos. Nesse sentido, a humildade é recomendável, já que é frequente ignorar até o que ignoramos. Estas lacunas no nosso conhecimento conferem à análise histórica uma dimensão de incerteza análoga à que corrói a previsão do futuro, onde abunda o desconhecido (equivalente à informação que ignoramos acerca do passado) e os desconhecidos desconhecidos (na mesma linha das variáveis relevantes do passado a que nem sequer prestámos atenção).

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