Palavras

Um arquivo de textos e imagens

Palavras

Teorias da Conspiração (um artigo de 2016)

Para o sociólogo francês Gérald Bronner, o ponto de partida para as teses conspirativas que hoje se disseminam com tanta prodigalidade pela internet é justamente o axioma de que não é possível demonstrar em definitivo que algo não existe. Trata-se de uma evidência lógica que está na base da analogia da “chaleira celestial“, formulada por Bertrand Russell. A ideia é simples: se alguém afirmar que um desses objetos domésticos orbita entre a Terra e Marte, e por mais absurda que a afirmação possa parecer, a respetiva falsidade é impossível de demonstrar segundo critérios racionais. Na verdade, o facto dos nossos telescópios não conseguirem observar a chaleira em órbita não nos permite necessariamente concluir que a mesma não se encontra realmente lançada numa vertiginosa odisseia cósmica.

Pois bem, assente neste dilema probatório, e por diversos motivos que Bronner tem explorado ao longo da sua carreira (não sem acusações de ser ele próprio um conspirador ao serviço de corporações como a Areva, líder no setor nuclear francês), a desconfiança insinua-se em todos os domínios da experiência coletiva.

Por um princípio de “avareza mental”, expressão empregue por Bronner, muitos indivíduos deixam-se encantar por abordagens simplistas às questões com que a sua atenção se engaja, sendo que as mesmas, as mais das vezes, surgem adornadas por um reluzente verniz retórico e expositivo que lhes confere uma falsa aparência de rigor e inovação. A complexa e demorada investigação e ponderação dos factos, que tornaria o espírito humano menos permeável aos enviesamentos psicológicos que, em regra, contaminam os raciocínios superficiais, é enjeitada. Alavancando as suas certezas num punhado de asserções cuja prova negativa é, por definição, quase impossível, estes “crentes” experimentam uma serenidade quase beatífica ante a complexidade do mundo por comparação com os “não-iniciados”.

Deste modo,a ambição de se sentirem especiais e de acederem a verdades “negadas” aos outros, transforma muitos dos iniciados na mundividência conspiratória em crédulos simplórios, ainda que convencidos de serem dotados de uma superior sofisticação intelectual.

A conspiração – que apela à nossa atração por explicações monocausais, monolíticas e prêt-à-porter – ajuda a desviar a atenção das verdadeiras (e geralmente complexas e ambíguas) causas dos fenómenos que pretendem explicar, entretendo o espírito dos crédulos em fantasias explicativas. Ainda que não haja qualquer intenção deliberada por parte daqueles que disseminam esta ou aquela teoria de “desviar atenções”, ao fomentarem a crença em explicações erradas ou parciais acabam por degradar o espaço de debate público, encerrando a discussão em parâmetros inúteis ao conhecimento.

A dúvida – impulso nobre e com “virtudes heurísticas” – como refere Bronner, nos casos em que não é acompanhada de empenho intelectual e métodos crítico que rejeite a tentação da reconfortante credulidade, pode conduzir não à desejada “autonomia intelectual”, mas antes ao “niilismo cognitivo”. Torna-se mais fácil aceitar a primeira teoria prêt-à-porter que nos seduza, ainda que assente em espúrias provas indiciárias que, com frequência, não resistem a um primeiro escrutínio rigoroso, mas que, numa primeira impressão preguiçosa, se mostram extraordinariamente persuasivas. Seja porque focam a nossa atenção num determinado detalhe descontextualizado, seja porque capitalizam sobre os enviesamentos cognitivos de que facilmente nos tornamos vítimas voluntárias.

Exemplos típicos são os da fotografia (uma entre mil) que, enquadrada por um texto suficientemente genérico para que a sua falsidade seja impossível de demonstrar categoricamente, parece mostrar inequivocamente algo que, na realidade, não tem qualquer cabimento; a meia dúzia de segundos de uma filmagem mais longa que, uma vez mais enquadrada por palavras que moldem a nossa interpretação do que estamos a ver, pareça efetivamente um elemento de suporte credível à veracidade da conspiração; ou, por hipótese, a mera seleção de um qualquer fator ou circunstância, de entre uma infinidade de outros que conduziriam a conclusões distintas, como monolítica explicação causal para que determinado evento tenha ocorrido.

É preciso também ter presente que esta apetência humana pela explicação conspiratória não passou despercebida e é habilmente explorada por muitos que dela aprendem a beneficiar.

A credulidade pressupõe manipulação e os crédulos rapidamente se convertem em marionetas que mentes mais lúcidas podem manipular, seja em proveito próprio, seja na prossecução de objetivos políticos. E o perigo maior reside no facto destas marionetas crédulas serem carnívoras, sempre prontas a devorar…

A conspiração pressupõe a existência de conspiradores, diabolizando certos grupos ou indivíduos, sem que o sentido crítico ou das proporções salve os crédulos (e, por inerência, as suas vítimas) da crença nas mais absurdas e descabidas acusações. Exemplo paradigmático é o dos Protocolos dos Anciãos do Sião, uma farsa que ainda hoje, não obstante as provas coligidas no sentido de demonstrar o seu caráter embusteiro, continua a ser invocada como verídica por certas fatias da opinião pública global.

A conspiração é, com frequência, uma forma de reforço da identidade individual, explorada deliberadamente por agentes políticos apostados em manipular a opinião pública, identificando “inimigos” concretos, a quem são assacadas as culpas exclusivas por males e estados de coisas percecionados como negativos.

Séculos de ignorância, isolamento e opacidade foram substituídos por uma modernidade caleidoscópica e desorientante, com múltiplas fontes de informação, rumores propagados globalmente a uma velocidade estonteante, exércitos detrolls a laborar deliberadamente no sentido de influenciar as crenças coletivas e meios de comunicação social dominados pelos interesses económicos que lhes asseguram, a troco de uma subserviência inconfessada, a sobrevivência quotidiana.

Neste presente incompreensível e avassalador, a teoria da conspiração, pelo seu superficial apelo explicativo e pela virtude aparente de expor os “inimigos” ocultos, confere aos crentes/crédulos um conforto místico que, de alguma forma, é parente próximo da experiência religiosa…

E o que fazer? Seguindo os ditames das Luzes: estudar, pensar, dialogar e resistir…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *