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Pioneiros e Migrantes

Esta semana, a conjugação entre uma entrevista de John Wayne à Playboy, ressuscitada para indignação popular, e a experiência de assistir a um filme dos irmãos Cohen, “The Ballad of Buster Scruggs”, suscitou-me algumas reflexões.

O filme é composto por segmentos independentes, um pouco como se se tratasse de um livro de contos, unidos pela temática americana do Far-West.

“All Gold Canyon”, com Tom Waits, é feito de imagens da prodigiosa beleza de um mundo natural virginal. No entanto, é em “The Gal Who Got Rattled” que o filme atinge o seu paroxismo, descrevendo a jornada de uma jovem ao longo do «Oregon Trail», um trilho lendário de quase quatro mil quilómetros que ligava o Missouri ao Oregon, percorrido a pé, em carroças e a cavalo por centenas de milhares de pioneiros europeus (as estimativas apontam para um número na ordem das 400 000 pessoas). Doenças como a cólera (que mata o irmão da protagonista) terão custado a vida a milhares de pessoas. Hipotermia, afogamento (poucos sabiam nadar e os rios que tinham de ser atravessados cobravam o seu tributo), escorbuto (a dieta era pouco rica em vitamina C e os oceanos de erva das pradarias demoravam semanas a atravessar), picadas de serpentes, acidentes com armas ou simples atropelamentos pelas carroças matavam também em números consideráveis.

A primeira caravana de pioneiros data de 1836 e, até ao advento da primeira linha de caminho-de-ferro transcontinental, em 1869, uma sucessão de caravanas de carroças transportou homens, mulheres e crianças até ao Oeste ao longo das Grandes Pradarias. Os descendentes de europeus procuravam as terras férteis do Oregon, atraídos pela promessa de um pedaço de chão. Medidas como o Donation Land Claim Act, de 1850, atribuíam 320 ou 640 acres de terra, consoante fossem, ou não casados, aos homens que requeressem tal concessão. Após quatro anos de cultivo, o título de propriedade passaria para o seu nome. Mais tarde, em 1862, os Homestead Acts iriam estender a prática, em moldes variáveis, também a outros estados, designadamente os territórios do Mid-West, como o Kansas. Cerca de 10% do território dos EUA foi atribuído a 1,6 milhões de homesteaders através de tais instrumentos legislativos.

E esta constatação traz-nos até John Wayne… A certa altura da entrevista, o ator diz o seguinte:

PLAYBOY: That’s hardly the point, but let’s change the subject. For years American Indians have played an important—if subordinate—role in your Westerns. Do you feel any empathy with them?

WAYNE: I don’t feel we did wrong in taking this great country away from them, if that’s what you’re asking. Our so-called stealing of this country from them was just a matter of survival. There were great numbers of people who needed new land, and the Indians were selfishly trying to keep it for themselves.

Hoje, as palavras de Wayne parecem grosseiras e francamente estranhas. Os índios eram egoístas porque não queriam ceder parte das suas terras aos recém-chegados europeus? A questão mais óbvia que se coloca, até pelo paralelo terminológico recente das caravanas de migrantes que atravessam a América Central em direção aos EUA, é a de saber que não estarão os americanos (ou os europeus) a ser “egoístas” por quererem as “suas terras” só para si mesmos?

Existe, no entanto, uma diferença óbvia entre as caravanas de pioneiros e a dos atuais migrantes. De facto, os “migrantes” novecentistas não avançavam para a civilização, mas antes para o mundo natural, apostados em transformá-lo pelo trabalho e engenho. Os novos migrantes, pelo contrário, procuram chegar a um lugar civilizado, com um poder político estabelecido, com uma economia e um sistema social edificado ao longo de gerações.

Não podemos questionar a legitimidade de um pai ou de uma mãe que procuram no estrangeiro as condições para uma vida melhor (ou até simplesmente para uma vida) para os seus filhos. Mas falsas equivalências devem ser evitadas.

E os índios? Que justiça lhes foi feita? Em rigor, nenhuma. Foram invadidos e, como tantos outros povos, despojados das suas terras ancestrais. Sobrevivem – e não o menciono com intuito insultuoso ou de menorização – como curiosidade antropológica… Dos Lusitanos, por exemplo, sobra pouco mais que a memória histórica preservada pelos seus conquistadores…

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