Palavras

Um arquivo de textos e imagens

Palavras

Já (quase) não existem fascistas (ou comunistas)

Porquê que a utilização do epíteto “fascista” (ou “comunista”) é (na maior parte dos casos) contraproducente (e errada) no mundo contemporâneo?

Em 23 Março de 1919, há quase um século atrás, portanto, é fundado em Milão o movimento fascista italiano. A expressão faz eco da simbologia romana, já que fasces era a palavra latina que aludia ao feixe de lenha. Os galhos que por só eram frágeis e quebradiços, unidos num feixe amarrado adquiriram resistência inquebrável. A imagem simbólica romana tornou-se, assim, relevante na imagética da Itália revolucionária do pós-guerra.

Marcha para Roma, Mussolini em 1922

O contexto do surgimento do fascismo italiano, tal como sucedeu com movimentos político-revolucionários similares na Alemanha, Rússia (aí tradicionalmente identificados com a esquerda), França ou Inglaterra (veja-se, a título de exemplo, os ferozes Black and Tans, que o governo inglês usou para reprimir o IRA na Irlanda), é radicalmente diferente da contemporaneidade.

A marca fundamental de todos estes movimentos foi a extrema violência empregue pelos seus membros, motivada pela circunstância de integrarem veteranos de um dos mais brutais e prolongados conflitos bélicos da história da humanidade e de terem surgido num contexto histórico de viragem, o advento da traumática modernidade industrial e tecnológica.

Os homens que combatiam nas ruas de Berlim, Moscovo ou Milão não eram estudantes universitários de classe média, como os de Maio de 1968 ou dos nossos dias, mas sim gente que havia passado os anos anteriores das suas vidas a matar, a ver morrer ou simplesmente a sofrer.

A crise económico-social daquelas décadas, por outro lado, não teve qualquer relação com as crises da modernidade ocidental. O sofrimento, a desigualdade e a pobreza dos dias de hoje são bem reais, mas incomparáveis (em escala, mas também, e em certa medida, em intensidade), com aquilo que sucedeu entre guerras.

Desde logo, as pessoas daqueles anos não possuíam o respaldo tecnológico que permite hoje um conforto e bem-estar razoável, mesmo na pobreza.

Não existia também uma rede social com a força das que hoje asseguram que a miséria não seja jamais completa, exceto em situações muito peculiares de desagregação psicológica, familiar e social.

Na Europa, em regra, a própria habitação encontra-se parcialmente assegurada, não sendo comparável a situação com a de há um século atrás. De resto, basta recuar três ou quatro décadas para que em Portugal se encontrassem milhares de pessoas a viver em barracas, nas chamadas ilhas ou pátios, e ainda em incontáveis prédios cujos apartamentos não possuíam sequer instalações sanitárias próprias.

Mesmo uma crise como a que se iniciou em 2008, com todas as hiperbólicas comparações com a Grande Depressão dos anos 30 do século XX, foram notoriamente suaves por comparação com aquele áspero passado. As métricas e estatísticas podem até pintar um quadro diferente, mas qualquer análise perfunctória dos relatos de vida na primeira metade do século XX e sobretudo das vidas dos “pobres” desses tempos, torna-se elucidativa.

Na Alemanha do pós-guerra, por exemplo, estima-se que milhões de mulheres de classe média terão recorrido à prostituição para assegurar a sobrevivência das suas famílias. A fome e a miséria extrema foram bem reais. A decadência moral de Weimar, que alguns leem como progressista, documentada por artistas como Otto Dix, George Grosz, Georg Scholz ou Jeanne Mammen, resultou, em grande medida, desta sujeição da autonomia sexual à pobreza.

Acresce ao exposto que logo após a guerra, quando os movimentos totalitários se começavam a enquistar como fenómenos de massas, o planeta foi devastado por uma crise de saúde que tolheu mais vidas ainda que o próprio conflito (estima-se que pode ter ceifado as vidas de cerca de 5% da população mundial). A chamada Gripe Espanhola terá contribuído também para essa insensibilização e endurecimento espiritual que me parecem ter sido condições sine qua non para o surgimento de fenómenos como o fascismo, o nazismo ou o comunismo.

Esmagados por tudo isto, não é de admirar que a reação e a ânsia de ordem das populações, mesmo que conseguidas a custo da liberdade, não possa encontrar paralelo com a atualidade.

Falar de fascismo hoje, sobretudo em países ocidentais, é, por tudo isto, um absurdo contraproducente. E o mesmo se diga relativamente às acusações de “comunismo” lançadas pela direita contra políticos como Sanders, nos EUA, um homem que, tanto quanto consegui perceber, não tem qualquer posição que extravase a tradicional social-democracia europeia.

Em rigor, creio que mesmo a maioria daqueles que hoje gostam de se apelidar a si próprios de neofascistas, neonazis ou comunistas, se fossemos dissecar o seu pensamento, inclinações e real comprometimento comportamental com a retórica do twitter estariam bem longe do ideário que supostamente advogam. Até porque o extremo individualismo e narcisismo da modernidade é, quase por definição, avesso à dissolução da identidade pessoal que os “ismos” pressupõem.

Acresce, e volto a sublinhá-lo, que na ausência da predisposição para a radical violência que apenas se pode forjar em trincheiras reais não pode existir fascismo (ou comunismo, ou nazismo). Podem acontecer sádicos e sociopatas (veja-se, por exemplo, os recrutas europeus do terrorismo islâmico), mas não movimentos de massas fundados na sublimação proto-religiosa do estado (nação, comunidade ou o que quer se lhe quiser chamar) e na desvalorização radical do indivíduo, duas características comuns a todos os “ismos”.

E já que mencionei o terrorismo islâmico, é relevante notar como o ISIS se impõe com alguns recrutas europeus, é certo, mas os seus contingentes foram sobretudo formados com gentes vindas de países, traumatizados por anos (por vezes décadas) de cruéis conflitos militares (e.g. Iraque, Síria, Chechénia, etc.).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *