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Ainda sobre os Freikorps e o radicalismo político: algumas considerações mais (2)

[Mais notas sobre Hitler’s Heralds: the Story of the Freikorps 1918-1923, de Nigel H. Jones]

Em Março de 1919, em Berlim, os Freikorps confrontavam os espartaquistas nas ruas da cidade, num crescendo orgíaco de violência, em que a brutalidade de uns alimentou a dos demais, num círculo vicioso de radicalização política.

O conflito surge na sequência da notícia do esmagamento da República dos Conselhos em Bremen, com cerca de oito dezenas de baixas entre o movimento esquerdista. Este acontecimento originou levantamentos populares no Ruhr e na Saxónia, levando à declaração de uma greve geral em 4 de Março, que desencadearia os “revolução” de Berlim.

Gustav Noske aproveita o pretexto para uma confrontação final com a esquerda radical e ordena aos Freikorps que avancem sobre a capital.

No dia 11 de Março, Harry Graf Kessler, amigo e biógrafo de Walther Rathenau (político judeu que viria a ser assassinado em 1922), regista no seu diário a reação à grotesca execução de uma trintena de marinheiros de esquerda. As vítimas, parte de um grupo maior de cerca de duas centenas pertencentes à denominada Divisão Naval do Povo, haviam-se dirigido a um edifício governamental no n.º32 da Französischestrasse para reclamar soldo em atraso, encontrando-se todos eles desarmados. Foram escolhidos para fuzilamento, de acordo com o depoimento de um dos líderes do corpo dos Freikorps responsável pela ação, o tenente von Marloh, porque pareciam os mais inteligentes do grupo, replicando assim o critério adotado nos massacres retaliatórios que se seguiram à queda da comuna de Paris em 1871.

Durante os tumultos, um pai e o seu filho foram fuzilados pelos Freikorps simplesmente por terem na sua posse o cabo de uma granada, objeto que o mais novo havia encontrado na rua e que havia guardado por curiosidade. Incidentes deste género haviam de se repetir, com a morte de inúmeros “inocentes”, com frequência por pretextos absurdos.

Vinte dias depois, Kessler, que mantinha contactos próximos com a esquerda, relata como se tornara verdadeiramente perigoso naqueles meios pedir clemência “(…) pela vida de um único burguês.” E acrescenta que caso “(…) o seu lado conquiste o poder, pretendem exterminar a classe média, de uma vez por todas

O mês de Março de 1919 assinalou a brutal derrota das forças de esquerda em Berlim, cidade tomada por tiroteios e bombardeamentos (inclusive com recurso a meios aéreos). Assume particular relevância histórica porquanto serve de ilustração para o caráter incendiário do extremismo político. Quando as posições de opositores políticos se formulam em termos tais que o campo oposto vislumbra no triunfo político dos adversários a possibilidade do término do seu próprio modo de vida, já não se está no domínio do confronto democrático, mas antes numa luta existencial (ou que é como tal percecionada, o que redundará no mesmo efeito prático).

No entanto, a entrada mais interessante dos diários de Kessler, linhas da presciência só possível a observadores livres, é datada logo de 7 de Março. «Esta manhã, observando os capacetes com espigão dos piquetes de Reinhard [líder de um dos Freikorps] vi pela primeira vez desde a revolução um vislumbre do velho espírito prussiano. Talvez um dia a tradicional disciplina prussiana e a nova socialista se coliguem para formar uma casta dirigente proletária que assuma o papel de uma Roma a propagar uma nova forma de civilização na ponta de uma espada. Bolchevismo ou qualquer outra etiqueta servirá. O pobre junker prussiano sempre foi uma espécie de proletário. Que a fé em Liebknecht, ou em quem quer que seja, assenta raízes firmes nestas massas alemãs, treinadas para a disciplina como estão, e pobres dos seus inimigos. Se não hoje, então em gerações vindouras.»

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