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Sobre os Freikorps e o radicalismo político: algumas considerações

[Notas sobre «Hitler’s Heralds: the Story of the Freikorps 1918-1923», de Nigel H. Jones

Ante a desagregação do exército regular, na sequência da derrota militar, da abdicação do Kaiser Wilhelm II, e da pressão revolucionária exercida sobre as fileiras, sobretudo no contexto da experiência russa de 1917, alguns elementos da direita conservadora alemã organizaram milícias voluntárias logo a partir do final de 1918, grupos que viriam a granjear triste notoriedade sob a designação coletiva de Freikorps.

Estas forças paramilitares reuniam veteranos amargurados e jovens cadetes provenientes das academias militares, a maioria dos quais, demasiado novos para ter combatido nas trincheiras, mantinham um entusiasmo bélico e patriótico que na maioria dos compatriotas se havia esvaído.

A nível social, a composição dos Freikorps unia a pequena burguesia e os camponeses. Do lado oposto, nas forças de Liga Espartaquista (a Spartakusbund, de onde sairia mais tarde o partido comunista alemão, o Kommunistische Partei Deutschlands) e múltiplos movimentos comunistas e anarquistas, militavam predominantemente membros das classes operárias urbanas. Ou seja, um confronto entre os que tinham algo, por pouco que fosse, e os que pouco ou nada tinham, existindo nos formigueiros urbano-industriais do início do século XX [Joseph Roth descreve maravilhosamente Berlim dos anos que se seguiram aos tumultos do pós-guerra, cidade de um modernismo agressivo, industrial e contraditória, circulando entre um musculado conservadorismo radical e a mais selvática concupiscência social.]

Curioso notar que foi sobretudo o pavor inspirado por uma possível revolução de cariz soviético, conduzida pela detestada vanguarda intelectual de esquerda, que motivou os dinamizadores dos Freikorps, milícias nas quais se respaldaram os elementos da esquerda moderada como o próprio Friedrich Ebert (o primeiro chanceler da república alemã, membro do SPD – Sozialdemokratische Partei Deutschlands), e Gustav Noske, o seu ministro da defesa, que provinham da classe operária e que se haviam movimentado em meios social-democratas e socialistas até à chegada ao poder. Jones qualifica esta aliança como um pacto faustiano, que haveria de devorar a Alemanha (e o mundo).

Considerando que o nacional-socialismo se construiu, em grande medida, na militância nos Freikorps, teria existido o terror nazi sem o extremismo (depois derrotado) de sinal contrário?

O motim dos marinheiros em Kiel, logo em Novembro de 1918, por exemplo, parecia prefigurar uma catástrofe ao estilo soviético. As movimentações revolucionárias no ano seguinte, primeiro em Berlim e depois em Munique, sublinharam esse perigo, embora, segundo Nigel Jones, o o mesmo tenha sido possivelmente sobrestimado já que o movimento de esquerda alemão não possuía organizadores com o brilhantismo ou o caráter implacável de Lenine ou Trotsky, pelo que seria maior a estridência retórica do que o músculo político. É possível… Mas também não é de afastar a possibilidade do triunfo revolucionário de esquerda na Rússia e a falência do movimento na Alemanha terem sido o produto de acasos e que, com ligeiros ajustes, a realidade tivesse produzido outro resultado, despromovendo o prestígio estratégico de Lenine e Trotsky e exaltando os alemães.

Será que Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg, cruelmente assassinados por membros dos Freikorps em Janeiro de 1919 (os detalhes do caso são pavorosos, com os dois intelectuais acossados Berlim afora, até que se dá a captura, seguida por brutais espancamentos, inclusive da frágil Rosa, e o desfecho fatídico, com assassinatos cobardes a meio da noite), teriam conduzido uma Alemanha diferente da Rússia de Lenine e Estaline se tivessem sido mais eficazes (e lfeizes) na sua ação político-revolucionária? Considerando que o seu companheiro de estrada era Wilhelm Pieck (que foi preso no mesmo dia, mas que estranhamente escapou ao cruel destino de Karl e Rosa), e que este se tornou o primeiro chefe de estado da Alemanha de Leste, a resposta parece previsível.

Em rigor, a análise histórica evidencia com mais clareza o perigo dos radicalismos políticos do que propriamente certezas sobre a maior ou menor bondade (ou, com mais precisão, maldade) deste ou daquele extremo do espectro ideológico.

Mesmo hoje, as guerras culturais e políticas que se prefiguram, com a sua retórica acintosa, pejada de inimigos, fascistas ou comunistas, são travadas entre um reduzido número de indivíduos. O receio é que estas minorias cretinas – à esquerda e à direita – acabem por mobilizar as massas complacentes para visões maniqueístas da realidade, substituindo opositores políticos (isto é, pessoas com opiniões e interesses diferentes, mas com quem, apesar de tudo, é possível estabelecer compromissos, tomar um café e passar momentos agradáveis até) em inimigos (ou seja, em gente a quem se permite duas alternativas apenas: rendição ou morte- morte física ou social, conseguida com desemprego, purgas, silenciamento e exílio interior).

Debates importantes, como o do futuro do trabalho e da organização do quotidiano laboral, demografia, migrações e, na confluência de tudo isto, gestão do impacto tecnológico são marginalizados ou, pior ainda, sequestrados e contaminados por extremistas com obsessões ideológicas, indiferentes à realidade, desprezando por completo os interesses e as preocupações dos oponentes, firmemente barricados na ortodoxia.

Neste contexto, interessa sempre lembrar o princípio, formulado por Nassim Taleb, da ditadura da minoria intransigente, designadamente no que concerne ao papel a desempenhar por uma maioria que não pretenda ser devorada.

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