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Liberdade?

Os vícios da frivolidade são sempre ruinosos para as gentes comuns, e uma única semana de imponderação e dissipação é com frequência suficiente para arruinar para sempre um trabalhador pobre, e para levá-lo, movido pelo desespero, a cometer os mais graves crimes. Como tal, os melhores e mais sensatos de entre as gentes do povo (common people) sentem o maior desprezo e detestação por tais excessos, que a sua experiência lhes sugere serem tão imediatamente fatais para pessoas da sua condição. A desordem e a extravagância de vários anos, pelo contrário, nem sempre arruinará um homem de posses, e as pessoas de tal situação são muito capazes de considerar o poder de se entregarem a algum grau de excessos como uma das vantagens da sua fortuna, e a liberdade de fazê-lo sem censura ou repreensão como um dos privilégios que cabem à sua posição na vida. Em pessoas da sua posição, consideram tais excessos apenas com um ligeiro grau de desaprovação, e censuram-nos ou muito ligeiramente ou nem sequer.

— Adam Smith, A Riqueza das Nações

Estranha consciência a dos proponentes de uma certa esquerda cosmopolita e intelectualizada, homens e mulheres que regem as suas vidas pessoais segundo valores perfeitamente conservadores de disciplina pessoal, agressividade financeira, estrita moralidade judaico-cristã nas relações familiares (em Portugal, por exemplo, educam os seus filhos, se possível, nos colégios católicos de Lisboa e do Porto, escolas que, como é sabido, lideram os rankings de qualidade), mas que ao mesmo tempo, em nome de uma artificial e oca noção de liberdade, permitem e fomentam o desmantelamento quer das instituições quer do mesmíssimo ideário conservador a que fundamentalmente aderem em privado, despojando os mais frágeis na sociedade de fundações cívicas críticas para conduzir uma vida como a que eles (a elite de vanguarda) escolhem para si e para os seus.

Numa nota complementar, transcrevo uma frase de Edmund Burke: «O que é a Liberdade sem sabedoria e sem virtude? É o maior de todos os males possíveis; pois é insensatez, vício e loucura, sem tutela ou moderação.»

Uma ideia dura e difícil de digerir na nossa modernidade infantilizada, mas cuja verdade ressoa na peculiar desagregação social neste Ocidente envelhecido e desorientado; povoado por cada vez mais homens e mulheres que escolhem não ter filhos ou que os adiam até ao limite; um Ocidente em que se combate com mais paixão pelo direito a abortar fetos do que pela possibilidade de os criar felizes; em que se grita mais alto pelo direito ao divórcio rápido do que a exigir condições para que os casamentos durem; o Ocidente em que tantos se mobilizam pela legalização da canábis e tão poucos se afadigam com a demanda por uma alegria lúcida.

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