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Um encontro com George Orwell (ou, “Breve Excursão pela Ortodoxia”)

Acontece depararmo-nos com textos ou imagens que expressam, com aparente sentido de adivinhação mística, pensamentos e impulsos estéticos que nos assolam interiormente. Para aqueles que ambicionavam originalidade ou, mais prosaicamente, os louros da revelação, esse encontro com o precedente pode esmorecer o ânimo, mas à frustração do momento pode também sobrevir a felicidade decorrente da constatação de que não se está, afinal, a sós na história.

Pois bem, a forma concreta da minha suspeição interior quanto a ortodoxias ideológicas encontrou eco num parágrafo de George Orwell, escrito três décadas antes do meu nascimento (Writers and Leviathan, 1948): «A aceitação de uma ortodoxia implica sempre herdar contradições não resolvidas. Veja por exemplo o facto de que todas as pessoas sensíveis se revoltam com o industrialismo e os seus produtos, e no entanto estão cientes que a conquista da pobreza e a emancipação da classe operária postula não menos industrialização, mas mais e mais.»

George Orwell, Inverno de 1945

Mais adiante no mesmo ensaio, Orwell acrescenta o seguinte: «E a maioria de nós ainda tem a perene crença de que cada escolha, mesmo cada escolha política, é entre o bem e o mal, e se algo é necessário então será necessariamente correto. Devíamos, creio eu, livrarmo-nos desta crença, que pertence ao infantário. Na política, cada um não pode fazer mais do que decidir qual entre dois males é o menor, e há algumas situações de que apenas poderá escapar agindo como um demónio ou um lunático.»

Num ensaio anterior, desta vez sobre o nacionalismo (embora a definição de Orwell transcenda o significado habitualmente atribuído à palavra) (Notes on Nationalism, 1945), Orwell diverte-se a indicar as verdades que determinados “nacionalismos” se recusam a admitir, já que a expõem as contradições inerentes à ortodoxia que servem. Assim, sobre, por exemplo, o pacifismo, uma verdade impronunciável seria esta: «Aqueles que “renunciam” à violência só o podem fazer porquanto outros estão a cometer violência em seu favor».

O mesmo exercício pode ser feito para comunismo, veganismo, capitalismo, ou qualquer outra ideologia que seja erigida pelos seus fiéis em ortodoxia inflexível.

O instinto de Orwell (e modestamente o meu) é o de que não existe essa messiânica teoria, ideologia ou religião que tudo nos explicará e de cuja adesão acrítica dependerá o advento do Conhecimento, da Justiça ou, com mais ambição, do Reino de Deus. De facto, sempre acaba por suceder que contradições não resolúveis abalem a ortodoxia, forçando os seus acólitos a fechar os olhos à realidade, que teima em contrariar a sua visão utópica das coisas. E chegado o momento de poder, empoleirados no alto da sua torre de marfim, os “ortodoxos” irão impor pela violência a preciosa ortodoxia, forçando o quadrado até que este encaixe no círculo, não importa a destruição e o sofrimento causados.

Na prática, a vida política sã é o resultado de compromissos, e a atuação dos agentes políticos de espírito são assenta em impressões variáveis acerca do que é certo, ajustáveis ante as circunstâncias, a idade que se vive (a histórica e, ao nível pessoal, a biográfica), o avanço tecnológico, a conduta dos outros, e, claro, os acasos naturais aos quais a fragilidade dos nossos invólucros biológicos nos expõe.

Mas a observação acerca das ortodoxias feita por Orwell, em rigor, é extensível à nossa própria identidade individual, uma estrutura que demasiadas vezes se enquista em falsas narrativas, que não encontram (ou, a partir de certo momento, deixam de encontrar) correspondência com a realidade das inclinações, gostos e sensibilidade de cada um… O resultado é uma violência autoimposta, visando policiar o comportamento e as emoções, domesticar o espírito e conformá-lo à ortodoxia de que, por qualquer motivo, fizemos nosso estandarte… Será um assunto a explorar adiante.

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