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A ideia radical de hoje será o (inevitável) senso comum de amanhã. Mas será mesmo assim?

«O radicalismo de hoje pode tornar-se o senso comum de amanhã». Movimentos históricos como o da abolição da escravatura ou da segregação racial, o (quase) fim da prisão por dívidas ou generalizada despenalização do aborto a pedido parecem indiciar que, de facto, um pensamento radical de hoje significará no futuro, após uma dura batalha contra as forças reacionárias, uma expressão de senso comum.

Esta lógica tem sido utilizada por defensores do veganismo ou da abolição de controlos fronteiriços como instrumento de catecismo, advertindo o homem comum de que a sua própria resistência a ideias como estas, provindas de setores que, por referência ao padrão social, são classificáveis como radicais, pode, afinal, resultar de preconceitos absurdos que lhe foram inculcados e acerca dos quais, daqui a alguns anos, se irão envergonhar.

Mas há pelo menos dois problemas com esta ideia: primeiro, nem todas as ideias radicais do passado se firmaram como “senso comum” no presente e, em segundo lugar, nem todas as que efetivamente acabaram por ser implementadas perduraram. Na verdade, no que a esta última categoria diz respeito, foram inúmeras as “ideias radicais” que se materializaram historicamente apenas para gerar devastação a uma escala difícil de expressar em palavras e que, após indescritível mortandade e sofrimento humano, regressarem ao panteão do radicalismo. Desde a eugenia do início do século XX, passando pelo comunismo ou pelo nacional-socialismo, muitas foram, de facto, as ideias radicais que jamais ascenderam ao trono do senso comum. E não precisamos sequer de procurar os exemplos ideológicos extremos. Podemos pensar em dimensões mais prosaicas da existência: há algumas décadas atrás, por exemplo, a lobotomia parecia uma solução milagrosa para as doenças do foro psiquiátrico.

A humildade intelectual deveria também fazer supor que algumas das “ideias radicais” cuja aplicação prática se generalizou, até pela contestação de que ainda são alvo, pode bem suceder que venham a ser novamente remetidas para o espectro da inaceitável radicalidade num futuro próximo. À medida que se generaliza e facilita a permissão para procedimentos cirúrgicos de remoção ou alteração da genitália, será assim tão difícil antever um possível futuro em que se olhe para tais práticas com horror? E quanto à legalização e vulgarização do uso de drogas psicotrópicas ou a prescrição médica de fármacos desta natureza a crianças diagnosticadas com “hiperatividade”?

Vem isto a propósito do regresso do socialismo como “ideia radical” credível, e da reintrodução no debate público de propostas “radicais” como a tributação dos ricos em taxas próximas dos 70% (preconizada, por exemplo, pela congressista estrela dos democratas americanos, Alexandria Ocasio-Cortez) ou até a ideia de que não é legítimo impedir os migrantes de entrarem nos países para os quais estes, por qualquer motivo, se decidiram mudar. Esta última crença não é ainda articulada de uma forma tão transparente por nenhum político ocidental, mas trata-se do pensamento inconfessado de largas fações à esquerda (e também na chamada “direita neoliberal”, que professa um globalismo e liberalismo económico extremos), já que, na prática, a consequência das políticas económicas e sociais defendidas é a da eliminação das fronteiras. Creio que apenas a convicção de que o público não está ainda totalmente predisposto a aceitar tal proposta impede os seus proponentes de formular a mesma com a clareza que a honestidade intelectual imporia.

Não pretendo tomar posição sobre qualquer das “ideias radicais” a que fiz alusão, mas apenas sublinhar que não é inevitável que a ideia radical de hoje seja necessariamente o senso comum de amanhã. A frequência estatística histórica de situações desta natureza não é suficiente para que tal progressão adquira o estatuto de “regra”.

Como tal, esta retórica progressista não deve intimidar ou coagir o pensamento. O entusiasmo e a vitalidade da vanguarda são importantes no debate público (tão críticos, de resto, quanto o conservadorismo), mas não devem condicionar a análise racional dos problemas. Não pode merecer senão repúdio a tentativa de coagir pelo embaraço gerado pela acusação de que estarão alegadamente “atrás do tempo” todos quanto experimentam o instinto (prudente e humano) de conservar o que existe (e tal como existe). Trata-se de uma retórica estulta, que busca fazer passar por argumento válido uma evidente falácia.

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